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Blog para apresentação de textos e desenvolvimento de práticas relacionadas à produção, manipulação, seleção, gerenciamento e divulgação de trabalhos de confecção de textos dos alunos e alunas do Professor Dr. Erivelto Reis, mediador, orientador e coordenador das atividades desenvolvidas no Blog, que tem um caráter experimental. Esse Blog poderá conter textos em fase de confecção, em produção parcial, em processo de revisão e/ou postados por alunos em fase de adaptação à seleção de conteúdo ou produção de textos literários.

terça-feira, 2 de junho de 2026

SONETOS DA PORTUGUESA - ELIZABETH BARRETT BROWNING - TRADUZIDOS POR LEONARDO FRÓES ()


SONETOS DA PORTUGUESA (2011)
 
TRADUÇÃO LEONARDO FRÓES 


ELIZABETH BARRETT BROWNING


Sonetos Portugueses é uma colecção de 44 sonetos de amor escritos por Elizabeth Barrett Browning[1]. Os poemas foram escritos entre 1844 e 1845, no período que antecedeu o seu casamento com Robert Browning em 1846[2]. A colecção foi muito aclamada pela crítica sendo extremamente popular durante a vida da poetisa, popularidade que continua até aos dias de hoje.

Título

Inicialmente Elizabeth estava muito relutante em publicar os poemas, sentindo que eles eram demasiadamente pessoais. No entanto, o seu marido insistia em que eles eram a melhor sequência de sonetos em língua Inglesa desde o tempo de Shakespeare e pressionava a mulher para a sua publicação. De modo a proteger a privacidade do casal, Elizabeth achou melhor publicá-los como traduções de sonetos estrangeiros. Por esse motivo, a colecção foi primeiramente conhecida como “Sonetos Bósnios”, até que Robert sugeriu a Elizabeth que alterasse a proveniência imaginária dos sonetos do Bósnio para o Português, pois ela , para além de ser uma grande admiradora de Camões era afectuosamente tratada por Robert Browning de "Pequena Portuguesa"[3].

10 Poemas selecionados por Erivelto Reis

Soneto 2

Elizabeth Barrett Browning

 

Mas só nós três neste universo infindo

Ouvimos a palavra que falaste:

Eu mesma e Deus e tu que a pronunciaste!

Deus respondeu... Estava me impedindo,

Ao malfadar-me as pálpebras no escuro,

De bem te ver – tal qual, se eu já morresse,

Nem o peso da morte oferecesse

Uma exclusão igual. O “não” mais duro

De todos é o de Deus, ó meu amigo!

Homens nos desunir não poderiam,

Nem o mar nos mudar, nem seu perigo;

Sobre os morros, as mãos buscar-se iriam:

E, sendo o céu entre nós dois o abrigo,

Nossas juras aos astros chegariam.


Soneto 3

Elizabeth Barrett Browning

 

Desiguais somos, coração de infante!

Desiguais nos costumes, nos destinos.

Nossos anjos da guarda peregrinos

Estranham-se ao passar como se avante

Suas asas se chocassem. És, e o sabes,

Um refém de rainhas em sociais

Torneios, onde os olhos brilham mais

Que os meus em pranto, e o papel que te cabe

É reger a orquestra. Então, por que ali

Da luz dos janelões lançar um olhar

A um cantor que, um cipreste contra si,

Cansa e nas trevas canta sem parar?

Em mim, o orvalho do ar – o crisma em ti.

Lugar de encontro a Morte há de cavar.


Soneto 9

Elizabeth Barrett Browning

 

Dar o que eu posso dar pode estar certo?

Prostrado te deixar sob o meu pranto

A ouvir dos anos o anelar que tanto

Me volta aos lábios de renúncia, perto

Dos sorrisos sem vida que me impeço,

Malgrado os rogos teus? Como receio

Estar errada! Iguais não sendo, há meio

De amados nos tornarmos? Dói, confesso,

Ver que se inclui entre os mesquinhos quem

Apenas dá isto que eu dou. Adeus!

Não sujarei de pó tal brilho nem

No teu copo vou pôr venenos meus.

Seria injusto dar-te amor também,

Se só posso te amar andando ao léu!

 

Soneto 10

Elizabeth Barrett Browning

 

Porém o amor, o puro amor, é lindo,

Merece aceitação. O fogo ardente

Queima tudo que encontra pela frente,

A mesma luz ao longe transmitindo.

O amor é fogo. E acaso se eu disser

Eu te amo, nota quão transfigurada

Em teu olhar me achei glorificada,

Cônscia dos novos raios que iam ter

Da minha face à tua. Nada é vil,

Por baixo que o amor for: a pequeneza

Do ser que o ama Deus fará gentil.

E o que ora sinto, sob esta incerteza

Disto que eu sou, por si brotou e viu

Que a obra do Amor reforça a Natureza.

 

Soneto 12

Elizabeth Barrett Browning

 

De fato, até o amor que vou louvando

E que ao subir do peito para a testa

De um rubi me coroa e põe em festa

O olhar dos homens, seu valor provando,

Até este amor, que é tudo que prezamos,

Eu não devia amar demais. Mas, dando

O exemplo, tu não estavas me ensinando,

Nos primeiros olhares que trocamos,

A amor chamar amor? Assim falar

De amor não posso como coisa minha:

Pela alma a tua me arrastou a arfar

E colocou num trono de rainha.

Se amo é por ti (humilde quero estar),

Que amo somente e a quem amo sozinha.

 

Soneto 14

Elizabeth Barrett Browning

 

Se tens de amar-me de algum modo,

Ama o amor, não mais, a meu respeito.

Não diga amar-me o olhar, o riso, o jeito

Suave de falar, ou o já pensado

Tal como eu penso e trouxe a certo dia

Um sentido de paz apetecido.

Porque em si estas coisas, meu querido,

Por elas ou por ti se mudariam.

Também não me ame se por compaixão

Ao secar minhas lágrimas. Quem tanto

Se apoia em ti talvez perca a ilusão

De amada ser, interrompendo o pranto.

Ama-me pelo amor tão só que, então,

Hás de amar-me no eterno deste enquanto.

 

Soneto 21

Elizabeth Barrett Browning

 

Diz e rediz, depois diz outra vez,

Que tu me amas. Palavra repetida

Parece pássaro a cantar? A cálida

Primavera sem ele nem talvez

Lançasse o verde em múltiplo matiz

Nas montanhas, no vale. Meu amor,

Cala a dúvida em mim, cala o torpor,

Dissipa a treva que me envolve, diz

“Eu te amo” uma vez mais. Quem vai temer

Mais uma estrela no céu rodopiando,

Mais uma flor o ano a enaltecer?

Diz “eu te amo, eu te amo” e, reiterando

Este dobre de prata, irás saber:

No silêncio da alma estás me amando?


Soneto 25

Elizabeth Barrett Browning

 

No coração um peso, de ano em ano,

Carreguei antes de avistar teu rosto,

Dor após dor em mim tomando o posto

Dos naturais sorrisos tão diáfanos

Como um colar de pérolas que, em turno,

Saltam num peito entregue à dança. Toda

Esperança em pesar virava à roda,

Nem Deus curava o mal, peso soturno.

Mas o árduo coração, a teu pedido,

Deixei boiar na calma do teu ser.

Ele afundou, tal qual já refundido

Na própria natureza, e veio a ter

O teu por cima: a um modo comedido

Entre estrelas e o fado a se exercer.

 

Soneto 26

Elizabeth Barrett Browning

 

Tendo apenas visões por companhia,

Não mulheres e homens, no passado,

Nelas tive parceiros delicados,

Do mais doce cantar que eu conhecia.

Logo porém seu rastro se perdeu

Na poeira do mundo e, ante o silêncio

Dos alaúdes, eu, cega em desmaio,

Nada mais vi. Até que visse o teu

Poder de ser o que eles pareciam.

O mesmo canto, o mesmo resplendor

(Santidade das águas que corriam)

Fundem-se em ti que chega vencedor

Da alma plena do quanto carecia.

Deus dá mais do que pede o sonhador.

 

Soneto 38

Elizabeth Barrett Browning

 

O beijo inicial que ele me deu

Foi só na mão com a qual agora escrevo;

E se tornou mais límpida no enlevo,

Que, lenta ao mundo, logo percebeu

A voz dos anjos. Um anel de ametista

Nela não brilharia ao meu olhar

Mais que o primeiro beijo. Ao se elevar,

O segundo, por pouco errando a testa,

Quase cai no cabelo, um prêmio extra.

Foi a crisma do amor, que uma coroa

Da mais santa doçura punha em festa.

O terceiro, na boca, ainda ressoa

Rubro, perfeito – orgulho que me resta

Ao te dizer “Amor és meu” à toa.

 


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